Hoje quando dei minha passada matinal na pagina do “The Time” Aqui na Inglaterra, me deparei com um artigo intitulado “Nao Ensine Nossos Meninos Serem Como Meninas”. Este artigo escrito por Nicola Pearson. Amei o conteúdo. Até porque me ajudou a me sentir um pouco melhor com relação a forma que tento criar meus filhos.
Desde que cheguei aqui na terra da Rainha Vitória, tenho recebido alguns elogios e críticas com relação a forma que tento criar meus filhos. Os comentários são do tipo: “Como vc tem coragem de deixar seus filhos brincando sem estar perto deles?” “Incrivel como seus filhos conseguem andar descalço!” “Damares, Mateus e Amanda estão brincando sem sapato, eles vão se machucar.” “Seus filhos são tão energéticos né? Será que é porque são brasileiros?” Estes e outros comentários são constantes.
Engraçado, porque no ínicio deste ano nós passamos 12 semanas no Brasil por quatro diferentes estados trabalhando. Minha familia estava comigo, inclusive meus filhos “super ativos”. Durante todo o tempo que estive lá os comentários eram exatamente o oposto. “Como seus filhos são comportados, quietos! Eles não são nada agitados. Por isto vc pode fazer o tipo de trabalho que vc faz com eles. ”
Tive que rir, afinal quem é mesmo que está certo?
Na relidade não estou aqui para fazer apologia a nenhuma cultura, reconheço que somos diferentes e são estas diferenças que nos enriquece, mas confesso que fico confusa em como devo estar criando meus filhos, com minha mentalidade latina modernista (nem sei se esta expressao existe) ou se devo estar dando ouvido ao que alguns educadores do primeiro mundo tem dito por ai.
Neste artigo mesmo diz “Se vc fosse um energético menino de 9 anos de idade, amasse a escola, tivesse dado seu melhor. mas também amasse ganhar dos seus amigos em todos os jogos possiveis, imagine como vc se sentiria com a loucura do nosso sistema de educação nas escolas publicas, onde os jogos de bola foram banidos dos patios em tempo de chuva (o que é bem comum aqui na Inglaterra) e ser competitivo se tornou problema…” Afinal agente sempre aprende que o importante é competir. Mas vamos ser honestos e concordar que se o importante é competir, o gostoso mesmo, e o que dar prazer é ganhar. Rsrsrsr. Desculpa ai professores!!!
Sue Palmer, uma pedagoga aposentada autora de um livro chamado 21st Century Boys, “Meninos do Século 21″ ainda não publicado. Ela diz que correr, se arriscar, se balançar, competir uns com os outros, é uma necessidade biologica dos meninos, para se desenvolverem apropriadamente. “Se eles não tem espaço para isto, muitos deles vão acharimpossível ficarem sentados quietos, se concentrarem em uma leitura, segurarem um lapis. Portanto seu comportamento será considerado difícil e acabarão acumulando fracassos.”
“Meninos precisam tres vezes mais ajuda do que as meninas na hora de aprenderem a ler e 75 por cento das criancas com problemas de hiperatividades são meninos. “Nós estamos perdendo nossos meninos na idade das peraltices e particularmente quando estão sendo alfabetizados. ” Palmer diz que ” Isto porque nos últimos 30 anos , masculinidade se tornou em embaraçoso.”
Pesquisas feita por Simon Baron-Cohen, professor em Cambridge diz em uma de suas teorias que meninos tem a tendecia de serem sistematicos e as meninas mais empáticas. Isto explica porque os meninos não são muito chegados a leitura e comprienssão, fica atraz das meninas em alfabetização. Muitos meninos acham mais fácil explicar o funcionamento de um relógio do que discutir como um personagem em uma história esta se sentindo.
Mudar isto fica meio dificil, porque assim como no Brasil as escolas primarias aqui são dominadas pelo mundo feminino. Aqui existem sete vezes mais mulheres nas escolas primárias do que homens. Creio que no Brasil a diferença ainda seja maior.
Algumas professoras do pre-escolar aqui tiveram que retirar brinquedos direcionados para meninos ou meninas, como trator para meninos e ursinho de pelucia para meninas. Isto devido a teoria “Vc é formado pelo seu meio, portanto passou ser responsabilidade da professora, socializar meninos longe das suas inclinações naturais, encorajar as meninas a estudarem assuntos tradicionalmente masculinos, como tecnologia”. Diz Christine Skelton, Professora que defende Igualdades entre homens e mulheres na educação pela universidade de Birmingham.
Agente tem que admitir que parte destas teorias foram extremamente positivas e necessarias, mas creio que temos levado algumas de nossas conquistas ao extremo. A diferença é legitima e serve para complementar e não ameaçar.
Palmer, que escreveu sobre isto no “The Time” diz ” A maioria das mulheres não gostam de se arriscar naturalmente, portanto professoras que não ajudaram ou participaram na criação de irmãos ou não tem filhos, comportamento destes pode ser ameaçador. Brincar de briga por exemplo, tem seu auge aos sete ou oito anos, na maioria das vezes não é agressivo, é um comportamento social. É a forma com que os meninos se conhecem… Muitas professoras ficam horrorizadas quando eu faço a sugestão de deixar os meninos brincarem de briga ou gritarem, porque eventualmente eles vão sair do outro lado com condições de negociarem.”
Eu tenho um menino de quase seis anos de idade e eu posso realmente confirmar isto. trabalhei com meninos de rua também por 13 anos e como isto é verdade! Na realidade percebo isto na forma que meu marido se relaciona com nosso filho. As vezes chamo atenção do Paulinho por estar brincando de briga com Mateus, achando que ele pode estar se machucando e por diversas vezes Mateus ficou chateado comigo dizendo. “Mamae, agente só está brincando!” Homem é bicho esquisito mesmo!
Outro ponto é que meninos buscam por aventura. Só que nossa sociedade é totalmente avessa a qualquer tipo de risco que por ventura envolva criança. Por isto as pessoas aqui muitas vezes me chamam atenção, por deixar Mateus, seis anos de idade ou Amanda quatro anos brincando por meia hora sem supervisão proxima. E olha que eu moro em uma comunidade que eu diria alternativa, onde todos se conhecem e se preocupam uns com os outros, em um condominio fechado. Imagine se morasse em uma vizinhança normal aqui na Inglaterra.
Quando foi que vc viu um grupo de meninos subindo em uma arvore aqui na Europa ou no centro de São Paulo?
Percebo que muitas vezes estou perto supervisionando meus filhos, porque tenho medo do que os outros vão pensar de mim, caso eu os deixe só. Fico horrorizada so de pensar que as pessoas achem que estou sendo irresponsável.
Mateus deu uma topada na semana passada. Embora eu tivesse por perto eu não vi ele se machucando e para piorar a situaçao ele estava descalso. Fiquei arrasada. Não por ele ter se machucado. Afinal quem é que nunca levou uma topada no dedão do pé na vida? Pelo menos os brasileiros da minha geração que brincou de pique bandeira na rua com certeza ja experimentou esta dor quase que orgásmica. Fiquei chateada por ter um monte de gente por perto e por imaginar que eles estariam pensando de mim.
Dan Travis, treinador esportivo, que esta liderando uma campanha para trazer de volta a competicao nas escolas aquiinglaterra diz: “O esporte para todos os genios tomou espaço nos anos setenta e nunca saiu de moda. Jogos devem existir para incluir, sem que haja um ganhador.” “Esta forma de pensar é desastrosa para os meninos, que precisam de competir para estabelecer seu espaço na hierarquia, que é como como eles organizam suas amizades…” “A auto-estima veio com os americanos e agora nenhuma criança pode “perder” de forma nenhuma.”
O artigo não quer trazer o entendimento que os meninos devem se comportar da forma que quiserem sem nenhuma disciplina, mas exatamente o contrário. O que precisamos aprender é celebrar nossas diferenças que nos tornam únicos. Ajudar nossos meninos e meninas a se entenderem melhor e saber o que é natural e o que não é.
Portanto o importante não é a igualdade entre os sexos, mas o entendimento das suas diferenças e seu espaço dentro da nossa sociedade. Um foi feito para complementar o outro e isto não tem nada haver com ser superior ou inferior, mas tem haver com a essencia de quem realmente somos.